


         PEDRO BANDEIRA 2001
         COORDENAO EDITORIAL: Maristela Petrili de Almeida Leite
         COORDENAO DA REVISO: Estevam Vieira Ledo Jr.
         GERENCIA DE PRODUO GRFICA: Wilson Teodoro Garcia
         EDIO DE ARTE: Edimilson Carvalho Vieira
         CAPA: Andrs Sandoval
         ILUSTRAES: Odilon de Moraes
         DIAGRAMAO: Raquel Bortoletto Ribeiro
         TRATAMENTO DE IMAGENS: Rubens Mendes Rodrigues
         SADA DE RIMES: Hlio P. de Souza Filho, Luiz A. da Silva
         COORDENAO DO PCP: Fernando Dalto Degan

         Inclui guia para leitura.

       Sumrio

         1.        Que bom que eu estou na cadeia!
         2.        Meu plano comeou numa boate
         3.        O garom era o meu libi
         4.        E eu fui preso, como queria
         5.         espera da fortuna


          memria do meu amigo Gabriel Tranjan Neto.



       1. Que bom que eu estou na cadeia!

         Acordei de um sono pesado, gostoso, sem sonhos. Sorri, ainda de olhos fechados, e me espreguicei gostosamente, sentindo a dureza do colcho.
         Cocei a virilha. Pulgas.  claro que s poderia haver pulgas naquela cadeia de terceira categoria. Mas no me importei com isso. Meu plano tinha dado certo.
Muito certo.
         "Sou um gnio!", pensei satisfeito.
         A cela onde eu estava no dava diretamente para a rua. A nica janela gradeada, muito alta, fora do meu alcance, dava para um corredor largo. Nesse corredor
deveria haver outras janelas tambm fortemente gradeadas, por onde se filtrava um pouquinho de luz natural. A luz que vinha de l era to pouca que quase no ajudava
a complementar a fraqueza da nica lmpada amarela, que j estava acesa. De acordo com os regulamentos daquela cadeia miservel, ela permanecia desligada durante
toda a noite. Eu estava sem relgio, e aquela lmpada acesa mostrou-me que j havia amanhecido.
         Devia ser uma manh feia, como adivinhei pelo barulho de uma chuva forte que eu podia ouvir distante, l fora.
         "Que cadeia vagabunda! Acho que escolhi certo. Nem hora para o caf da manh essa gente tem! Ai, mas que tipo de caf da manh ser que eles servem por
aqui?"
         Senti um pouco de fome. Mas sorri, ao pensar que, dentro de poucos dias, eu estaria em algum hotel cinco-estrelas, nos Estados Unidos talvez, sendo servido
na cama por uma garonete de peitos grandes transbordando para fora do decote. Fechando os olhos, pude at sentir o cheirinho do caf servido em uma bandeja de prata,
com o jornal do dia ao lado, um vasinho com uma rosa amarela, gelias, suco, pezinhos quentes... Torci o nariz ao me lembrar da mania dos americanos de comer ovos
fritos e bacon no caf da manh. E de que aquele jornal deveria estar escrito em ingls.
         "Breakfast! Para a minha nova vida, acho que vou ter de aprender ingls..."
          Levantei-me e urinei na privada encardida do canto da cela, sem paredes para proteger o usurio dos olhares de fora.
         Alm das grades da cela, somente outro corredor, onde um carcereiro sonolento ficara todo o dia anterior resmungando e ouvindo seu radinho de pilha.
         A mesa do carcereiro estava vazia. Sobre ela, o radinho, mudo.
         "Melhor!", pensei. "Quanto menos eu tiver de ver a cara desses caipiras, melhor!"
         Meu plano tinha sido perfeito. Irretocvel!








        2. Meu plano comeou numa boate

         A idia me ocorreu numa boate enfumaada, quase deserta, no mesmo instante em que prestei ateno a um garom, olhar morto, que mecanicamente limpava o
balco com um pano encardido.
         Como se parecia comigo! Era o prprio derrotado, um humilde trabalhador da noite, sobrevivendo  custa de magras gorjetas de clientes bbados, mas tinha
a minha aparncia. Obviamente aquele garom era muito burro para viver de sua boa figura, como eu fazia to bem com a minha, conquistando ricaas solitrias.
         Naquela madrugada, na boate, eu me sentia tambm um derrotado, quase como o pobre garom. Eu escolhera a dedo a ricaa que me pareceu certa. Meia-idade,
sozinha, carente... A mulher certa para casar e garantir o meu futuro antes que o tempo viesse roubar-me a juventude, a fora e a capacidade de conquistar facilmente
as mulheres que me sustentavam.
          Mas aquela mulher... Ah, revelara-se uma bruxa depois do casamento. Tratava-me como uma criana dependente, dava-me uma mesada ridcula, mantinha-me sempre
 vista, sempre a seu servio, sempre tolhido, acorrentado quela manso como um co de quintal.
         O garom, to parecido comigo, inspirou-me a idia na hora. Amadureci-a durante uma semana e voltei  boate, com o plano arquitetado. L continuava o garom,
na mesma vidinha, enxugando o mesmo balco, vivendo a mesma derrota. A mim bastou aproximar-me com uma gorjeta gorda para conquistar a confiana do homem.
         Fizemos amizade. Encontrava-me s vezes com ele, at mesmo fora da boate. O sujeito vinha sempre com uma conversa sobre a mulher doente, sobre os trs filhos
pequenos... Uma chatice! Mas eu fingia interessar-me e s vezes arranjava-lhe um dinheirinho, nada grande, separado do que eu conseguia arrancar da avarenta da mulher.
O resto eu guardava, juntava, gastando o mnimo possvel, a fim de garantir o capital necessrio para o dia da ao principal.
          Dizia ao garom que aquilo era um "emprstimo entre amigos". Os tais emprstimos eram dinheiro que jamais voltaria, eu estava cansado de saber. Mas fazia
parte do plano. Era um investimento at barato para o retorno que eu tinha em mente.
         Aos poucos encontrei uma maneira de ir direto ao ponto. Disse ao garom que queria fazer uma brincadeira com uns amigos do interior. Tudo o que ele precisava
fazer seria ir  tal cidadezinha, bem prxima da capital, fingir-se de bbado e armar uma briga em um bar. Devia fazer o maior estrago que pudesse, quebrar algumas
garrafas, algumas cadeiras, e sair correndo no carro que eu lhe emprestaria.
         O dinheiro que dessa vez eu ofereci foi muito bem-recebido pelo pobre garom e calou algumas perguntas que talvez sua pouca inteligncia estivesse sugerindo.
         Deu tudo certo. Tudo mais do que certo. O homem fez tudo como eu planejara.







       3. O garom era o meu libi

         Em casa, eu preparara o terreno com habilidade. Mostrara-me interessado em procurar terras no interior, para ajudar minha esposa a investir sua fortuna.
Logo, a bruxa, os empregados da casa e meus poucos amigos sabiam disso. A bruxa at pareceu satisfeita, ao ver o marido interessado em outra coisa alm de tomar-lhe
dinheiro.
         No dia escolhido, vestindo um terno espalhafatoso, sa pilotando o Monza da mulher. Dirigi para a cidadezinha escolhida, distante uns sessenta quilmetros,
e registrei-me no nico hotelzinho do lugar. Andei bastante por l, visitando corretores, perguntando sobre escrituras no cartrio de registro de imveis, fazendo
que me vissem bem, ajudado por aquele terno diferente.
          noite, dirigi para fora da cidade, para o encontro marcado com o garom, em um ramal deserto da estrada. s dez horas, como esperado, o homem apareceu,
a bordo de uma Braslia caindo aos pedaos. Trocamos de roupa, e o garom sorriu ao vestir um terno como aquele.
         - No se esquea - lembrei ao garom.
         - V para o bar, finja-se de bbado e, l pela meia-noite, quando o proprietrio quiser fechar, faa-se de ofendido, diga que no vai sair e comece os estragos.
         - Pode deixar - concordou ele, antegozando a diverso.
         Sorrindo, entrou no Monza e rumou para a cidadezinha.
         Quando o carro desapareceu de vista, entrei na Braslia, fazendo o retorno para a capital. A outra parte do meu plano, a mais importante, ficava a meu cargo.
         Sorria comigo mesmo. Enquanto eu estivesse na capital, realizando aquela parte mais importante do plano, o garom, parecido comigo, dirigindo o meu carro,
vestindo minhas roupas espalhafatosas, realizaria a segunda metade do plano, fazendo estragos no tal barzinho. Era o meu libi. Perfeito.
         Nem os empregados da casa nem os amigos souberam que eu voltara para a capital naquela noite.
         A bruxa soubera.  claro que soubera. Tinha de saber. Mas a surpresa que comeara a estampar-se em seu rosto, emplastado pelos cremes que todas as noites
lhe cobriam a cara, desapareceu com o tiro.
         Depois voltei calmamente para o mesmo ponto da estrada, para o segundo encontro com o garom. Passava da uma hora da madrugada.




         O homem no demorou a chegar, no Monza. Nem percebeu que eu estava diferente, mais nervoso do que o normal. E mesmo que percebesse no perguntaria nada,
de to excitado que estava com a prpria aventura e com o dinheiro embolsado como pagamento pela diverso daquela noite.
         Trocamos novamente de roupa. O homem continuava rindo-se das "brincadeiras" e dos estragos que promovera naquela noite. Naturalmente o pobre-diabo no fazia
a menor idia do meu plano. Principalmente da parte em que deveria representar seu maior papel. O papel de cadver.
         Aquele trecho de estrada de terra era perfeito. Recuado, escuro como breu. Bem perto, uma pequena cachoeira encobriria o barulho que eu teria de fazer.
Andamos uns vinte metros, rindo muito, at a beira da gua, pois eu dei a desculpa de precisar urinar.
         O pobre homem estava de costas para mim e ainda ria de suas aventuras quando eu apontei a automtica para sua nuca. O estalo seco do tiro misturou-se ao
murmrio da cachoeirinha e o homem caiu para a frente, com a cara na gua. Nenhum grito, nenhum gesto.
         Ao longe, tudo o que se ouvia eram os latidos de um co.
         Abaixei-me e revistei os bolsos do cadver. Peguei de volta o dinheiro que lhe havia dado, junto com os trocados miserveis que o homem trazia consigo e
com os documentos que encontrei. Tirei-lhe do pulso o relgio barato e arranquei-lhe do pescoo uma correntinha, na certa uma pobre imitao de ouro, com uma medalhinha
de So Judas. Tudo pronto, empurrei o cadver mais para dentro da gua.
         Estava feito.
         Quem se importaria mais tarde com aquele cadver? Quem se importa hoje em dia com mais uma vtima de assalto? Ou com uma velha Braslia abandonada na estrada?
Aquele era um pobre coitado. Vivera como um pobre coitado e morrera como um pobre coitado. Pensariam que fora assaltado e assassinado por outro pobre coitado e como
um pobre coitado seria enterrado. Sem identificao. Na vala comum dos pobres coitados.
         Nem me ocorreu que, atrs do pobre coitado, ficara uma viva com trs crianas pequenas. Mas isso no me importava. No havia vivas nem crianas em meu
plano. E meu plano era perfeito.
         Entrei no Monza e, quando achei que a distncia era suficiente, comecei a jogar fora, a cada trs ou quatro quilmetros, a correntinha, a medalhinha, o
relgio e os pedacinhos dos documentos, que fui rasgando.






       4. E eu fui preso, como queria

         Dirigi calmamente para a cidadezinha. Eram quase duas horas da madrugada quando entrei no hotel, fazendo um pouco de barulho, cambaleando como bbado, naquele
ponto em que a vontade de fazer arruaas provocada pelo lcool j se transformava em sono. Estava certo de que o idiota do porteiro noturno do hotel se lembraria
mais tarde que me vira entrar.
          lgico que mal consegui dormir, mas, de manh, estava alerta e barbeado, vestindo o terno espalhafatoso. O resto do plano a populao e a polcia da cidadezinha
cumpririam facilmente. Sa do hotel, respirando o ar da manh.
         O comrcio estava comeando a abrir suas portas, e eu no fiz nenhuma questo de passar despercebido. Parei na prefeitura, fui at o cartrio, falei alto,
pedindo para consultar escrituras, mostrei-me malcriado, sa.
         Fui at o barzinho onde o falecido garom fizera sua algazarra na noite anterior. Pedi um caf e um bolinho que nem ousei morder. Notei a surpresa do proprietrio.
Fiz-me de desentendido, paguei e fui saindo.
         Andei meio sem destino, vagarosamente, em torno da pracinha.
         No demorou e um policial aproximou-se, dando-me voz de priso. Com o canto dos olhos, eu pude ver o dono do barzinho, que ficou a uma distncia cautelosa,
mas que certamente tinha trazido o policial e tinha me apontado.
         A ltima parte do plano estava completa.
         Eu representara direitinho. Mostrara-me surpreso com o que estava acontecendo. Esbravejara. Pedira para telefonar ao meu advogado. Consentiram. Telefonei
para a casa do advogado, que acordou e prometeu correr para a cidadezinha. Isso tambm fazia parte do plano. O advogado deveria estar na estrada, indo para l, quando
tentassem localiz-lo para comunicar a morte de uma de suas clientes mais ricas.
         Colocaram-me em uma cela. A nica que estaria ocupada. A cadeia era minscula, mas poderia ser menor ainda. Aquela porcaria de cidade era to incompetente
que nem o crime tinha chegado at l.
         Duas horas depois, meu advogado chegou, falou com o delegado e prometeu conseguir um habeas-corpus na manh seguinte.
         - Infelizmente, o senhor vai ter de passar esta noite aqui.
         Eu sabia disso. Fingi-me de ofendido. Disse que tudo aquilo era um absurdo. Que no ficaria assim. Eu sabia que, no final das contas, bastaria pagar pelos
estragos feitos pelo falecido garom, e tudo ficaria bem.
          tarde, voltara o advogado. Vinha vermelho, nervoso, sem saber como comear a falar.
         Mais uma vez, eu representara magistralmente. Quando soube da morte da minha esposa, descabelei-me, exigi que me soltassem, ameacei novamente.
         O delegado mostrou-se sensibilizado, mas nada podia fazer sem uma ordem do juiz. O tal habeas-corpus s viria na manh seguinte e eu tinha de conformar-me
com uma noite na cadeia. O advogado voltou a repetir o "infelizmente", desculpou-se e acabou indo embora.












       5.  espera da fortuna

         Eu ficara sozinho em minha cela. Como esperava. Com o libi mais slido do mundo. Estava preso por um pequeno delito que aquele garom cometera por mim
enquanto eu matava minha mulher, na mesma hora, e a sessenta quilmetros da cidadezinha! Por isso, naquela manh, eu acordara to feliz, trancado numa cela de priso.
         "Genial! Brilhante! Eu sou um gnio. Um gnio rico!"
         Senti vontade de rir, de gritar, de danar, mas era obrigado a manter as aparncias. Tinha de parecer arrasado com a morte da minha mulher e revoltado por
estar naquela cadeia miservel.
         Mas aparentar tudo aquilo para quem? At aquele momento, o carcereiro no aparecera. Nada do caf da manh. Nem um rudo se ouvia na cadeia.
         Rudos? Vindo do lado de fora, ouvia-se algum barulho. Os rudos eram diferentes, mas pareciam nervosos, nervosos demais para uma cidadezinha pequena como
aquela.
         A chuva parecia aumentar. Uma tempestade. Dessas em que todo mundo devia ficar em casa, protegido. Mas nada disso parecia acontecer. Ao contrrio. O que
eu ouvia eram carros passando em velocidade, algum gritava. Mais algum. Gritavam o qu? No dava para entender.
         S a cadeia estava silenciosa. O que estava acontecendo?
         - Ei, vocs a! Algum! O que est havendo?
         Colado s grades da cela, eu chamei e chamei e chamei.
         Nada. Nenhuma resposta.
         Fora, aumentavam os gritos. Que diabo seria aquilo? Parecia... pnico!
         Pnico? Por que o raio daquela gentinha de uma minscula cidade do interior ficaria em pnico? Ah, se o maldito carcereiro aparecesse!
         - Carcereiro! Carcereiro!
         Silncio dentro da cadeia. Barulho l fora.
         Deixei-me cair sobre o catre. Que se danasse o carcereiro e toda a excitao da maldita cidadezinha! Eu no tinha nada com isso.
         Dentro de poucas horas, estaria fora dali, a quilmetros de distncia. O advogado deveria chegar em pouco tempo com o bendito habeas-corpus. O resto que
se danasse!
         De repente, no meio da confuso, das aceleradas e do ranger de pneus partindo em velocidade, consegui distinguir um dos gritos. Ouvi perfeitamente:
         - Vamos fugir daqui. Rpido! No temos muito tempo!
         Fugir? Por que raios de razo estaria aquele caipira cretino querendo fugir?
         Eu precisava ver o que estava acontecendo. Talvez, se conseguisse arrastar a cama para perto da janela gradeada...
         O catre era leve e eu pude facilmente coloc-lo de p, encostado  parede. Agarrei-me, escalei a cama e estiquei os braos. Talvez pudesse alcanar a borda
da janela...
         O catre era leve e frgil. Entortou com o meu peso e ruiu. Desabei junto com o catre antes que meus dedos pudessem alcanar o peitoril da janela gradeada.
Abaixo, s o cho de cimento.
         "Tlec!", fez minha perna ao bater no cho, e uma dor aguda, lancinante, percorreu-me todo o corpo, indo ferver-me a cabea, numa exploso de sangue e sofrimento.
         - Ahhhh!
         Fiquei imvel durante algum tempo. A perna parecia ter partido mesmo. O osso da coxa. Como era mesmo o nome daquele maldito osso? Ri, nervoso, suando frio.
Eu nunca dera mesmo muita ateno  escola.
         - Algum! Carcereiro! Algum me acuda!
         Estou ferido!
         A fratura do maldito osso sem nome doa como o diabo. Amaldioei a curiosidade que me levara a tentar espiar l fora. O que eu tinha a ver com aqueles idiotas
que estavam querendo fugir de alguma razo mais idiota ainda?
         - Calma... - balbuciei para mim mesmo.
         - Eu no tenho nada com isso. O que  uma perna quebrada? Isso se conserta. Vou ficar novinho em folha. Novinho e rico. Calma... est tudo bem, est tudo
bem...
         Havia uma caneca cada. Rolara quando tudo viera abaixo. Peguei-a e comecei a bater no cho de cimento, ritmadamente, desesperadamente.
         - Algum! Socorro! Guardas! O que est acontecendo?
         Arrastei-me at as grades. Por que o maldito carcereiro no aparecia para ouvir aquele maldito rdio?
         Bati com a caneca nas grades. Alumnio contra ferro, o barulho era muito maior. Certamente seria ouvido at l fora. Certamente algum ouviria. Certamente
algum...
         "Pein, pein, pein!", fazia a caneca batendo contra as grades.



         Mas ningum apareceu. Ningum parecia ouvir nada. L fora, aos poucos, os rudos foram diminuindo. Aos poucos, s o "pein, pein, pein" de minhas batidas
ressoava, tendo o forte barulho da chuva como acompanhamento.
         A caneca j estava totalmente amassada, e meus dedos doam quando eu desisti de bater nas grades. Por um instante, s o rudo da chuva entrava na cela.
         "Alguma coisa... alguma coisa diferente deve ter acontecido. Afinal de contas, nenhuma cadeia fica assim vazia. Afinal de contas... Calma, preciso ter calma.
Tudo est sob controle. Logo que me levarem a um mdico e me engessarem essa perna, tudo vai ficar bem.
         Cado no cho, meus olhos ergueram-se para a mesa do carcereiro. L estava o radinho de pilha.
         "Um rdio! Se eu puder pegar o rdio..."
         A perna doa muito a cada movimento, mas consegui arrastar-me at a cama cada e pegar um lenol. Arrastei-me de volta para as grades e passei o lenol
para fora. Apoiei-me com uma das mos e levantei-me, sustentando-me sobre a perna boa.
         Estiquei o brao com o lenol para fora das grades. Dei um impulso e joguei-o em direo  mesa do carcereiro, sem largar a ponta.
         Falhei. Recolhi o lenol e tentei de novo.
         Falhei novamente. A perna quebrada, solta, balanando a cada movimento, a dor aumentava, eu queria deitar-me novamente, mas precisava do rdio. Precisava
de uma voz humana que me explicasse o que estava acontecendo.
         Numa ltima tentativa, o lenol abriu-se por sobre toda a mesa.
         Respirei fundo. O suor corria-me pelo rosto, pelo corpo todo. Um suor de medo, um suor de dor, transformando-se em pnico.
         Lentamente, fui puxando o lenol para mim. O pano agarrou-se ao que tinha sobre a mesa. Lpis, um bloco de papis e... o radinho!
         Com cuidado, arrastei o radinho at  beira da mesa. Mais um pouco, mais um pouco e...
         Pronto! O radinho estava no cho. Bem mais prximo. Agora era s jogar o lenol novamente e arrast-lo para mim.
         Dessa vez foi fcil. O radinho era leve, e veio documente, como um peixe cansado de lutar contra a rede.
         Estiquei o brao e agarrei a presa.
         Tinha o rdio! Liguei-o apressadamente. S esttica. Girei o seletor, tentando melhorar a sintonia, procurar outra estao, mas...
         - Droga! O radinho quebrou-se ao cair da mesa!
         No havia como mover o ponteiro. Encostei o ouvido no pequeno alto-falante e fiquei tentando distinguir alguma coisa inteligvel em meio  matraca da esttica.
         Uma voz masculina, distante, driblava vez por outra os chiados. A voz parecia excitada, assustada, diferente da calma absurda dos locutores, que conseguem
noticiar as maiores barbaridades com o mesmo tom com que noticiam a prxima atrao.
         "Rc... voltamos a repetir... rc... ateno. .. rc... "
         - Diabo de esttica! Diabo!
         "Aviso a toda a populao... rc... repetir... rc... toda a rea deve ser... rc... rc... rc..."
         - Maldita! Maldita! O que est havendo? O que est havendo?
         O radinho calou-se.
         Desesperado, soquei o rdio, com raiva.
         A esttica voltou. Mas s a esttica.
         - Maldita... ah, maldita...
         Eu mal tinha foras para gritar. De meus lbios, os pedidos de socorro voltaram a sair, mas dessa vez mais na forma de lamentos.
         - Socorro... me audam... eu estou ferido... estou sozinho... ai, meu Deus, eu estou sozinho... no me deixem sozinho... pelo amor de Deus... no me deixem
sozinho...
         Eu estava chorando. As lgrimas quentes corriam-me pelo rosto, e eu soluava como um beb.
         Subitamente, o radinho voltou a falar, agora um pouco mais claro:
         "Rc... voltamos a... rc... a barragem rompeu-se... a barragem rompeu-se... rc... toda a rea vai ser inundada... rc... a defesa civil alerta:
fujam todos! No levem nada. A fora das guas da represa est destruindo o restante da barragem! Toda a rea vai ser inundada! Fujam! Fujam! Fujam pela vida!...
rc..."
         O qu?!
         A surpresa fez cair o radinho das minhas mos. Fiquei sem fala.
         Mas agora eu no precisava mais do rdio. J sabia por que estava sozinho. Compreendia subitamente todos os rudos de pnico que ouvira l fora. A chuva
fora forte demais. A barragem rompera-se, e a cidade ia ser inundada! Tudo ficaria debaixo d'gua!
         Por isso todos tinham fugido. Os caipiras, o delegado, os guardas, o carcereiro. Todos escapariam do afogamento. Todos, menos eu.
         O que me restava agora era s a morte. Morte horrvel. Imaginei as guas chegando, invadindo a cela, subindo. Imaginei-me tentando escalar as grades, fugir
das guas, mas percebi que nada adiantaria. Meu destino estava traado. Eu morreria afogado como um rato dentro do esgoto!
         Perdi completamente o juzo. Esqueci-me de tudo, do plano, da riqueza que estivera ao alcance de minhas mos, da dor, e pus-me a lutar pela vida.
         - Socorro! Vocs no podem me deixar aqui! No podem! Voltem! Me ouam! Eu fui preso por engano! Eu no tenho nada a ver com essa cidade!  tudo um engano!
No fui eu que briguei no bar! No era eu! Me levem pra capital! Me entreguem pra polcia da capital!  l que eu devia estar! Socorro! No fui eu! Foi o garom,
foi o garom que brigou no bar! O garom! Ele agora est morto! Est morto, jogado num riozinho! Procurem! Fui eu! Fui eu que o matei! Era tudo um plano, um plano!
Pra que pensassem que tinha sido eu! Pra que no soubessem que eu estava em casa naquela hora! Eu estava matando a minha mulher! Me audam! Fui eu! Fui eu que matei
a minha mulher! A minha mulher! Eu a matei! Eu a matei! Me levem pra capital! Me salvem! Fui eu! Fui eu! Eu no quero morrer! Eu no quero morrer!
         Naquele exato instante, o barulho da chuva cessou como por encanto, e outros rudos invadiram a cela.
         Cado no cho, desesperado pela dor e pela perspectiva da morte prxima, demorei a compreender por que, de repente, uma pequena multido invadia a cela.
         Atravs das lgrimas, vi os guardas, o delegado, o carcereiro do radinho, e mais alguns homens que eu nunca vira antes.
         Um deles, o mais velho, meio gordo, vestindo um terno amarrotado, foi o primeiro a entrar na cela, depois que o carcereiro a destrancou.
         - Muito bem. Conseguimos! - festejou uma voz no meio do grupo.
         O tira mais velho acocorou-se ao meu lado. Sorria levemente. Com calma, tirou um cigarro do mao, acendeu-o e estendeu-o para mim.
         - Voc... quem  voc? O que aconteceu? A barragem...
         - Est l, firme como sempre esteve, fornecendo energia para metade do Estado - respondeu o tira.
         - Mas ento... eu... o rdio! O locutor! Ele...
         - Uma gravao, meu caro. Uma engenhosa gravao embutida no radinho. Voc quase ps tudo a perder quando socou o radinho. Mas era um risco que tnhamos
de correr.
         - Mas a chuva, a tempestade...
         - Est um sol lindo l fora, meu caro. Nada que uma boa gravao no possa disfarar. Voc sabe, a tecnologia de hoje...
         Meus lbios tremiam, eu custava a compreender. Tudo acontecia muito rpido.
         - Mas o meu plano, o meu libi...
         - Era perfeito, meu caro. Era mais que perfeito...











         Pedro Bandeira nasceu em Santos (SP), em 1942 e reside em So Paulo desde 1961. J foi ator, jornalista, editor e publicitrio. Em 1983 publicou pela Editora
Moderna seu primeiro livro, O dinossauro que fazia au-au. E de l para c no parou mais, escrevendo tanto para o pblico infantil como para o juvenil.
         A droga da obedincia, Pntano de sangue, Anjo da morte, A marca de uma lgrima (prmio de "Melhor Livro Juvenil", da Associao Paulista dos Crticos de
Arte, em 1986), A droga do amor, Droga de Americana!, O medo e a ternura, Agora estou sozinha, Na colmia do inferno so alguns de seus inmeros livros j publicados.



